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Entrevista com o Caçador Graco

No quarto caderno in-oitavo, especificamente nas páginas 11v-19v, Kafka figura uma de algumas versões do Caçador Graco. Conhecido no Brasil principalmente pelo conto, aqui observamos a experimentação com outro gênero: a entrevista. Só por isso o texto já merecia uma tradução.

O que abaixo fiz é resultado da revisão de uma versão engavetada em 2020, que principiei em 18 de março daquele ano, uma semana após a declaração da pandemia de COVID-19. Resolvi trazê-la a lume depois de cogitar vários – e irrealizados – planos de divulgação. O que importa, isto é, o texto, aí está. Os possíveis comentários serão limitados a poucas linhas.

A versão busca respeitar a condição manuscrita:

  1. mantenho todos os travessões originais que separam as falas do diálogo (os famosos Querstriche kafkianos);
  2. marco assim o que está efetivamente riscado na linha do texto;
  3. já "[destarte]assim" estão marcadas as sobrescritas, isto é, as reformulações da escrita no fluxo da escrita (e que preservo em alguns casos porque guardam sentidos outros): no exemplo, assim entra no lugar de destarte;
  4. last but not least, assim estão trechos rasurados através de toda a página, num grande risco.

Poupei-me de marcar acréscimos interlineares ou redações estenografadas; e fiz leves alterações na pontuação, buscando inteligibilidade para o leitor brasileiro.

Por fim, há várias passagens que ecoam outros textos de Kafka, como, afinal, é típico do seu estilo (algo que tentei delinear em minha tese de doutorado). Por questão de espaço e escopo, não mapeei essas relações aqui.

Uma última dupla de comentários:

  1. o cognome Gracchus é aparentado etimologicamente do italiano gracchio (lat. graculus), que, por sua vez, é um parente semântico do tcheco kavka: todos com o sentido de gralha. Não é à toa que encontramos esse passarinho como símbolo do negócio de Hermann Kafka, o pai do escritor.

    HermannKafkaDohle

  2. Já a cabra montesa (Gemse) tem duplo significado. Por um lado, pertence a uma velha tradição da pintura de paisagem e simboliza, talvez por sua temeridade, o suicida. Um exemplo pode ser conferido no canto direito inferior de uma famosa gravura alpina de Pieter Bruegel (v. abaixo). Por outro lado, era gíria, no alemão vienense da época de Kafka, para prostitutas (Alt, 2008, p. 528). Somos tentados a extrapolar essas aproximações e a deduzir as possíveis causas da passagem de Graco para o outro mundo...

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“Como é, caçador Graco, você está viajando há séculos nesse velho batel?”


Já faz 15 séculos.


E sempre nesse barco?


Sempre nessa barca. Afinal, barca é o termo correto
Você não entende de náutica?


Não, só hoje que me interessei por isso, desde que fiquei sabendo de você, desde que pisei em seu barco.


Não é desculpa. Eu também sou do interior. Não era navegante, não queria me tornar um, a montanha e a floresta eram meus amigos e agora – o mais velho dos navegantes, caçador Graco, patrono dos marinheiros, caçador Graco, invocado de mãos atadas pelo grumete que na noite tormentosa se angustia na gávea. Não ria.

Eu devia rir. Não, decerto não. Com palpitações no peito estive diante da porta de sua cabine, com palpitações no peito entrei. Seu jeito simpático me acalmou um pouco, mas nunca hei de esquecer de quem sou hóspede.


Decerto, você tem razão. Seja como for, sou o caçador Graco. Não quer beber do vinho, a marca não sei qual é, mas é mais doce e forte vinho, o patrão me provê bem


Agora não, por favor, estou muito inquieto: talvez depois, se você me aturar até lá. Aliás não ouso beber da sua taça. Quem é o patrão?


O proprietário da barca. Esses patrões, por sinal, são pessoas extraordinárias. Só que não os entendo. Não falo da língua deles, apesar de frequentemente também não a entender. Mas isso é só detalhe. Ao longo dos séculos aprendi línguas o bastante e poderia ser intérprete entre os antepassados e os contemporâneos. Mas não entendo o circuito de pensamento curso dos pensamentos dos patronos. Talvez você possa me explicá-lo


Não tenho muito esperança. Como poderia lhe explicar algo, uma vez que frente a você mal sou com uma criança balbuciante.


Assim não, de uma vez por todas não. Você há de me fazer um favor se você se apresentar um tanto mais masculino, mais consciente de si. De que me serve uma sombra como hóspede? Vou soprá-la pela escotilha afora rumo ao mar. Preciso de muitas diversas explicações. Você que vagueia aí fora pode me fornecê-las. Se gagueja, porém, aqui à minha mesa e esquece devido por autoengano o mínimo que você sabe, então pode se mandar agora mesmo. O que quero dizer, eu digo na lata.


Há aí algo de correto. De fato sou superior a você em muitas coisas. Vou tentar me conter, então. Pergunte.


Melhor, muito melhor, nesse sentido você exagera e se imagina um tanto superior. Você só tem que me entender direito. Sou gente como você, só que com tantos séculos de impaciência a mais, quantos de idade. Então os patrões. Preste atenção. queríamos falar dos patrões. Preste atenção. E beba vinho para aguçar seu entendimento. Sem medo. Com força. Ainda tem uma carga inteira no navio.


Graco, esse é um vinho excelso. Vida longa ao patrão


Pena que ele faleceu hoje. Era um homem bom e partiu pacificamente. Crianças crescidas e bem criadas estiveram junto a seu leito de morte, e ao pé da cama a esposa caiu desacordada, o último pensamento dele, porém, foi por mim. Um bom homem, um hamburguês.


Um Ó céus, um hamburguês, e aqui no sul você sabe que ele hoje faleceu.


Como? Não deveria saber quando meu patrão morre? Mas você realmente é simplório.


Quer me ofender?


Não, de modo algum, faço contra a vontade. Mas você não deve se espantar tanto e sim beber mais vinho. Com os patrões, por[tanto]ém, a situação é essa: originalmente, a barca não pertencia a ninguém.


Graco, um pedido. Diga-me primeiro, breve mas coerentemente, como é qual é a sua real situação. Para falar a verdade: na verdade não sei. Para você trata-se naturalmente de coisas óbvias, e conforme é seu jeito você pressupõe no mundo todo o conhecimento delas. Mas agora, na curta vida humana – pois a vida é curta Graco tente entender isso – nessa curta vida, dizia, a gente está sempre com as mãos na massa para fazer prosperar a si e à família. Por mais interessante que o caçador Graco seja – isso é convicção, não adulação – a gente não tem tempo de pensar nele, se informar acerca dele ou de se preocupar com ele. Talvez no leito de morte, como seu hamburguês, não tenho certeza. Ali talvez o homem industrioso tenha pela primeira vez tempo de se espreguiçar e então passeia pelos pensamentos ociosos o verde caçador Graco. Fora isso, como dito: não sabia nada de você, por conta de negócios estou aqui no porto, vi a barca, a prancha restava reta pronta, eu atravessei – mas agora gostaria de saber algo coerente a seu respeito.


Ah, coerente! As velhas, velhas histórias. Todos os livros estão cheios disso, em todas as escolas os professores o pintam no quadro, a [ama]mãe sonha com isso enquanto a criança mama no seu seio, – é o sussurro nos abraços, os comerciantes o dizem a seus compradores, os compradores aos comerciantes, os soldados o cantam durante a marcha, o pregador o brada para a assembleia, [esc]poetas historiadores observam de boca aberta em sua sala o há muito ocorrido e o descrevem ininterruptamente, no jornal está estampado e o povo o leva de mão a mão, o telef[one]afe foi inventado para que a história isso desse a volta ao mundo mais rapidamente, escava-se de cidades enterradas e o elevador corre com isso até o topo dos arranha-céus, os passageiros dos trens bradam o espalham das janelas pelos países que atravessam, mas antes mesmo os selvagens uivam-no na direção deles, pode-se lê-lo nas estrelas e as águas os lagos carregam a imagem especular, os rios o levam das montanhas e a neve o espalha novamente sobre os cumes.
e você, homem, fica sentado aqui e me pergunta pela coerência. Você deve ter levado uma juventude especialmente dissoluta.


Possivelmente, como é próprio a qualquer juventude. Mas lhe seria muito útil, acho eu, se você em algum momento levantasse a cabeça por sobre o convés desse uma olhada mundo afora. Por mais que lhe pareça estranho, eu próprio quase me espanto aqui, mas é assim mesmo, você não é o objeto da conversa na cidade, por mais que se fale de muitas coisas, você não está entre elas, o mundo segue seu curso, e você faz sua viagem, mas até hoje nunca reparei que vocês tenham se cruzado.


Essas são suas observações, meu caro, outros fizeram outras observações. Aqui só existem 2 possibilidades. Ou você cala o que sabe sobre mim e possui com isso alguma intenção específica. Nesse caso vou lhe falar abertamente, vou lhe falar abertamente: você está num caminho desviado. Ou então: você acredita não consegue poder de fato se lembrar de mim, porque eu você confunde a minha história com a de outro. Nesse caso digo apenas: eu sou — Não, eu não posso, todo o mundo sabe e justo eu devo lhe contar! Já se passou tanto tempo. Pergunte aos historiadores! Eles observam de boca aberta em sua sala o há muito ocorrido e o descrevem ininterruptamente. Pergunte aos [vende]historiadores! Vá até eles e depois volte. Para mim Já se passou tanto tempo. Como haveria então de guardá-lo nesse cérebro abarrotado?


Faça como quiser. Agora você teria uma boa oportunidade para me dizer. Em algumas palavras apenas. Estamos aqui sentados confortavemente, tomando vinho. Seria uma oportunidade. Mas uma vez tendo ido embora, não voltarei mais. Exatamente essa hora, eu a dediquei a você


Espere, Graco, vou facilitar para você, vou lhe perguntar. De onde você vem?


Da Floresta Negra como todos sabem


Naturalmente, da Floresta Negra. E lá pelo século IV você caçava por ali


Céus, você conhece a Floresta Negra?


Não.


Você não conhece nada mesmo. O filho pequeno do piloto sabe mais que você, decerto bem mais. Quem foi que botou você para dentro? É uma maldição. Sua modéstia inicial era de fato muito bem justificada. Você é um nada que eu encho de vinho. Você é Você então não conhece nem mesmo a Floresta Negra. De onde você vem então?


Da Boêmia. E a Boêmia você por sua vez não conhece. Não


Não a Boêmia, porém, não [cons]conheço. Você porém é um grande símio, se você ousa comparar a [Flore]Boêmia com a Floresta Negra. Eu nasci


na Floresta Negra, lá cacei até meu 25o aniversário. Atravessei-a de cabo a rabo. Quero levar você às cegas por caminhos que ninguém conhece de sul a norte através de toda a Floresta Negra. E nasci lá, por 25 anos eu Até o 25o ano cacei lá. Se a cabra-montesa não me tivesse atraído – portanto, agora você já sabe – teria tido uma bela e longa vida de caçador, mas a cabra-montesa me atraiu, eu caí e morri ao bater sobre uma pedras. Não continue com as perguntas. Aqui estou eu, morto, morto, morto. Sei lá por que estou aqui. Me puseram então no batel da morte, como convém, um miserável morto, realizaram as 3, 4 manobras comigo, como com todos, por que fazer exceção ao caçador Graco, estava tudo em ordem, estava estirado dentro do batel;


Peter-André Alt. Franz Kafka. Der ewige Sohn. Eine Biographie. C.H. Beck, 2008.
F. Kafka. Historisch-Kritische Ausgabe sämtlicher Handschriften, Drucke und Typoskripte. Oxforder Oktavheft 4. Stroemfeld, 2008, pp. 47-79.

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