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Lalebuch, ou da morosofia alemã

Motivado por uma palestra que ontem mediei sobre a Utopia de Thomas More, resolvi traduzir um historieta que, há bastante tempo, se encontra no rol dos meus (das minhas?) traducenda. Trata-se de um capítulo do Lalebuch, livro publicado anonimamente em 1597 e plagiado um ano depois sob um novo título, Die Schildbürger (Os cidadãos de Schilda). Nele, conta-se a história dos lalenses de Laleburgo, um grupo de sábios que, para fugir aos inúmeros convites que lhes chegam para assumir postos de conselheiros reais, segue por uma senda particular: assumir a estupidez. O que poderia ser a assunção de uma máscara acaba, entretanto, tomando feições quixotescas, uma vez que os personagens – literalmente moro-sofos – se tornam de fato estúpidos, dando origem, até mesmo, a uma expressão proverbial em língua alemã: Schildbürgerstreich, uma ação estúpida, em que meios e fins não se conversam.

Para minha versão, usei tanto o original em alemão pré-moderno (ed. da Reclam), quanto uma adaptação para o alemão contemporâneo (ed. da Galiani Berlin). Útil foi também este dicionário.

Na passagem escolhida, logo no primeiro parágrafo, retoma-se uma descoberta epimeteica do capítulo 8.

Abaixo, vê-se uma xilogravura do século XVII sobre este episódio.

xilogravura muehlstein

Cap. 35 – Como os lalenses escavaram uma mó e um deles fugiu com ela

Os camponeses tinham erguido um moinho, para o qual haviam, em conjunto, talhado uma pedra de uma pedreira sobre uma alta montanha e, sob muito esforço e trabalho, trazido montanha abaixo. Conforme chegaram com ela na parte baixa, veio-lhes à mente quão facilmente trouxeram a madeira para a construção da prefeitura ao fazê-la descer pela montanha. Por isso falaram assim entre si: “Mas quão estúpidos somos de passar perrengue quando poderíamos resolver tudo com menos trabalho! Vamos levar a pedra de volta para cima e então deixá-la rolar até aqui, como fizemos também com o madeirame.”

Isso a todos agradou, e assim levaram a pedra, com ainda maior esforço, de volta montanha acima, e no momento em que queriam derrubá-la novamente, um deles falou: “Como vamos saber para onde ela terá ido? Quem poderá nos dizer isso lá de baixo?” – “Ah”, disse o prefeito, o qual havia feito a sugestão, “isso é mole de fazer. Um de nós tem de enfiar a cabeça nesse buraco (pois as pedra de mó têm no meio um grande buraco) e descer junto montanha abaixo.” Isso foi tido por bem, e logo tinham escolhido um, que colocou a cabeça dentro do buraco e desceu com a pedra pela montanha.

Agora, lá embaixo na montanha havia um lago de peixe. Nele caiu tanto a pedra quanto o lalense, de modo que perderam a ambos – a pedra e o homem –, e ninguém sabia onde poderiam ter ido parar. Assim, uma desconfiança pairou sobre o companheiro que descera com a pedra, como se este tivesse fugido com a mó e quisesse lhes tomar o que era seu. Destarte fizeram pregar cartazes em todas as cidades, aldeias e regiões ao redor: se surgisse alguém com uma mó ao redor do pescoço, deveriam prendê-lo e privá-lo de seus direitos como a alguém que enriquecesse com o bem público.

O pobre coitado, entretanto, restava no lago, morto. Pudesse ele ainda falar, com certeza lhes teria dito que não deveriam se preocupar por sua conta. Ele gostaria de lhes entregar o que era seu. Mas o peso havia lhe feito tamanha pressão, puxando-o tão profundamente, que, depois de engolir bastante água, mais do que lhe fez bem, morreu morte morrida e mesmo no presente dia está morto, e morto deve, tem e há de permanecer.

Das Lalebuch. Trad. Reinhard Kaiser. Galiani Berlin, 2021, p. 143ss.
Das Lalebuch. Ed. Stefan Ertz. Reclam, 2022 [1970], p. 115ss.

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