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Para o 100mo aniversário de Lenz

Um romance que começa com um Nein (não) e termina em Niemandsland (terra de ninguém), cujo protagonista, em diálogo com um interlocutor silencioso, rememora a terra natal e seus costumes após a destruição (consumada por ele próprio!) do único museu que celebrava sua memória – não é pequena a pretensão de Siegfried Lenz (1926-2014), nem é estranha a qualquer um que já tenha lido o Grande sertão: veredas (1956).

Saída em 1978, ou seja, quatorze anos após a tradução de Curt Meyer-Clason pela Kiepenheuer & Witsch, Heimatmuseum é um hino do autor à Masúria, região da antiga Prússia onde nasceu, hoje território polonês – um caldeirão cultural recheado de vida e de histórias. O trecho a seguir, retirado do primeiro capítulo, dá testemunho desta rica simplicidade, e bem poderia ter sido escrito em Minas Gerais.

Sobre o alemão de Lenz, cabe uma nota: é permeado de regionalismos, o que dificulta sua versão para outras línguas. São lexemas e/ ou pronúncias típicas do baixo-alemão nortista, como Pomuchelskopp (idiota) ou jieprig (para gierig), ou de outras variantes, como a renana sapschen (para patschen), ou até mesmo corruptelas do polonês, como fschistko jädno (para wszystko jedno):

Como se dizia entre nós, isso é fschistko jädno, o que significa algo como tanto faz.
Lenz 2018, p. 88

Do desafio, tentei fazer um exercício lúdico. De resto, aí vai um trechinho deste romance (que, diga-se de passagem, ainda estou a ler).

O velho Piwko, mesmo para as dimensões masurianas um exímio idiota, juntara os patos no curral, oitenta ou cem patos, sempre a fugir do seu cajado, do qual pendia um laço oval feito de arame trançado, um laço que ele fazia balançar, fazia saltar diante dos olhos azul-escuros do pato antes de, num golpe, levar ao pescoço e fechar puxando. Este não conseguia mais grasnar, porém batia enfurecido as asas, estrebuchava e agitava as patas esticadas numa câimbra, de medo soltava um arco de merda rumo ao curral. Piwko levantava os patos enlaçados com seu varapau, eu já estava a postos e cobria com ambas as mãos o bico, em cujos orifícios estouravam bolhas, e cuidava para que o pescoço estivesse bem esticado, calmamente deposto sobre o cepo, quando ele levantasse o machado, quando tomasse com gosto as medidas e num único golpe separasse a cabeça. Chapinhando, o machado se agarrava ao cepo. A mim cabia a cabeça. Os bicos se abriam, experimentavam alguma coisa. Uma película azul cobria lentamente o olho. Eu carregava as cabeças para uma lona, onde as depunha em fileiras de dez, igualmente distantes umas das outras, facilmente contáveis, enquanto ele entregava o corpo quente e insistente do pato, a se contorcer querendo ir para todo canto, a Regine Ziemek, que, sentada num banquinho de pernas abertas e cantarolando, tomava cantarolante o pato em suas mãos, achava e abria com uma faquinha a carótida, convenientemente fazendo escorrer todo o sangue e impedindo-o de coagular na medida em que mexia vez e outra na bacia de cerâmica.

Regine Ziemek, não só a mais equilibrada e versátil moça de toda a propriedade, mas também a mais despreocupada, uma moça que a tudo e a todos nada mais tinha a dizer senão “uai, pur mim…” ou “tanto faz, sô”, o que no fim das contas dava no mesmo. Sua falta de opinião sobre as coisas era tamanha, tão indiferente sua impassibilidade, que era raro levantar a cabeça e espreitar em direção ao pátio, apesar de lá tratarem do seu próprio futuro, apesar de lá, diante de um pequeno público – meu avô havia partido a cavalo –, dois homens disputarem violentamente entre si quem daria no futuro o seu sobrenome a Regine Ziemek. Pacata, mexia o sangue para a czernina, seu prato favorito, entregava o tronco do pato simpaticamente à minha mãe, que o depenava, abria e, soberanamente, arrancava fora as tripas e separava-as.

Lenz 1980, p. 46s

S. Lenz. Heimatmuseum. Dt. Bücherbund, 1980 [1978].
S. Lenz. So zärtlich war Suleyken. Hoffmann & Campe, 2018 [1955].

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