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Uma contribuição kafkIAna

Às voltas com algumas reflexões sobre IA e seu impacto na educação, encontrei numa carta de Kafka a Felice, datada de janeiro de 1913, uma passagem singular. Nela, o correspondente dá vazão ao seu temor diante de algumas mídias modernas – e.g. o parlógrafo e o telefone – e justifica-o com um argumento que poderíamos resumir em duas palavras: máquinas desempoderam. Deixo aqui o trecho, que traduzo da edição de bolso de Hans-Gerd Koch:

A pobre amada escreve cartas promocionais! Vou receber também uma, apesar de não ser comprador, apesar de, pelo contrário, ter por princípio um medo de parlógrafos? Uma máquina, com sua demanda séria e silenciosa, me parece exercer sobre o trabalhador uma coerção ainda mais intensa e atroz do que uma pessoa. Quão insignificante, fácil de dominar, de mandar embora, de diminuir aos gritos, de ofender, de questionar, de espantar, é um datilógrafo vivo; aquele que dita é senhor, mas diante de um parlógrafo perde a dignidade, é um trabalhador industrial que deve operar com seu cérebro uma máquina roncante. Como são arrancados à pobre razão, que por natureza trabalha lentamente, os pensamentos através de um longo fio! Fique contente, querida, que você não tenha de responder a essa objeção em suas cartas promocionais, ela é irrefutável; que o passo da máquina seja facilmente regulável, que se possa tirá-la da frente quando se está sem vontade de ditar etc., essas não são refutações daquela objeção, pois pertence ao caráter da pessoa que assim objeta o fato de nada disso lhe servir de ajuda.
(Kafka, 2015, p. 240s.)

Não custa lembrar: o parlógrafo tinha dupla função. Podia reproduzir áudio, como um gramofone, mas também gravar, como um ditafone. Era a aposta tecnológica da firma de Carl Lindström, onde Felice trabalhava à época.
F. Kafka. Briefe an Felice Bauer. Fischer, 2015.

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